Coração de papel






     Quando criança por volta dos cinco anos eu tinha ido um posto de saúde porque eu estava passando muito mal e com febre. A vista dos ipês era linda, mesmo sonolenta e febril eu podia ver. Nesse dia lembro de quando acabei de ser atendida e via várias crianças no lado de fora do posto e uma câmera da TV com um repórter apontado o microfone para a minha mãe fazendo pergunta sobre a saúde pública. Ao final ele me cumprimentou e perguntou o que eu faria se eu ganhasse um milhão de reais. Eu sorri com um sorriso de uma criança envergonhada tem e pensei em uma resposta. Lembro que me senti pressionada em responder algo maduro ou iriam brigar comigo e levei bem a sério a pergunta porque ele tinha feito a pergunta de um jeito sério. Então eu disse que eu compraria biscoitos, foi isso que respondi. O câmera ao lado riu e depois o repórter me entregou dois pacotes de biscoito e eu não tinha entendido o porquê, só lembro de olhar pra minha mãe e perguntar se eu poderia aceitar. Ela só pediu que eu agradecesse. Ele foi o meu primeiro amor, tão gentil.
            Na época fizeram uma entrevista nos postos de saúde sobre a importância da vacinação. Essa entrevista em que a minha mãe passou a tarde na televisão, mas eu acabei perdendo por estar dormindo devido ainda estar me recuperando de estar doente. Lembro dos três beijos que te dei, talvez quatro, cinco na minha mãe e meu pai, sempre amorosos da qual tiveram que partir mais cedo.
Minha mãe em um certo dia precisou ir para o hospital e não voltou mais. Até hoje não sei ao certo o que aconteceu porque o meu pai não me disse e me deixou em um orfanato, mas dizem que ele também não está mais vivo.

            Estou com 21 anos agora e eu moraria na casa da patroa dessa amiga da minha mãe. Eu a chamava de tia e ela tinha uma relação conturbada com seu marido e sabe relações assim deixam as pessoas sensíveis, além dela não ter condições de sustentar uma desempregada. Nessa casa havia uma família composta por um pai e uma mãe que eram muito ricos e por isso talvez eles tivessem tantos filhos ao todo cinco, o curioso é que eram todos homens e hoje seria meu primeiro dia nessa casa.
            Assim que entrei no carro dos pais, saindo do orfanato, nenhum dos garotos olharam muito pra mim. Dali fomos ao supermercado, daqueles que tem vários atendentes de caixa e prateleiras altas. Hoje era uma tarde chuvosa de sábado e o supermercado não estava lotado e por lá mesmo os pais me apresentaram. A senhora Helena, a mãe, começou a se apresentar enquanto olhava agitada as caixas de cereal.

- Emmica, temos agora mais um membro para família então viemos correndo comprar comida para rebe-la, você pode ficar a vontade de escolher o que quiser. Pedro vai com ela e ajude, ela está envergonhada.

- Bem, apresente os meninos. Dizia o pai que se chamava Ernesto.

- Esse é Hayden, Pedro, Felipe, Augusto e Cackto, quer dizer é o Carlos, é só apelido. Eu sei que ta todo mundo euforico para te conhecer então tive uma ideia a cada sessão um de vocês guiar a Emicca. Certo?

Eu consenti.

O Pedro parecia alguém meigo e sentia que ele seria meu confidente.

- Pode escolher não sou eu que vou pagar. Pedro dizia enquanto colocava as mãos no bolso.

- Por isso mesmo fico sem jeito, o que vão pensar de mim?

- Que você é alguém que ta com fome ué.

- Ta bom, né

Peguei vários biscoitos da fileira. Era a comida que eu mis amava.

Pedro era o penúltimo filho mais velho e tinha a mesma idade que a minha.

 

Agora eu estava na fileira do macarrão com Hayden com o filho mais velho.

- E ai?

- Oiii.

- Vamos escolher o que você quiser. O que você quer jantar?

Eu fiquei em silêncio só observando a fileira enorme de variedades.

- É verdade que você vai ficar lá em casa?

- Sim, por enquanto. –  Respondi de qualquer forma – até que ele deu um sorriso pra mim e mais ninguém. Minha tia conversou com seus pais. Eles chegaram a falar de mim?

- Sim, eles ficaram muito empolgados. Sempre quiseram ter uma menina. Vai ser como a princesinha deles se prepara. O resultado você já ta vendo. Ele deu uma piscadinha.

 

Agora eu estava na fileira dos produtos de higiene com o Felipe o filho do meio o adocente.

- Bem-vinda, Emmica!

- Obrigada!
- Vamos lá escolher.

Ele não me fez mais pergunta alguma e fiquei muito à vontade com ele. Felipe só ficava no celular enquanto me esperava escolher o que eu precisava.

 

Agora na fileira de sucos com Cackto com o filho mais novo.

- Oi, e ai?

- Oii

- Olha vou te mostrar um suco que eu me amarro.

- Qual?

Ele abre a caixa com o canudinho.

- A gente não pode consumir algo antes de pagar.

- Claro que a gente pode, meus pais pagam depois ali no caixa. Pode beber pra experimentar. Como você vai saber se gosta?

- Hum é bom mesmo. Parece uma bala que eu gosto, pera tenho aqui na bolsa. Quer uma?

Ele balança cabeça assustado.

- Não, obrigada.

- Ta bom então!

- Eu preciso chegar rápido em casa, tenho que estudar sabe. Você já foi pra escola?

- Sim eu já fui.

- Tenho que estudar pro meu curso de inglês is very important, depois ainda treinar tênis é muito corrido o meu dia e depois ainda ligar para a Monica.

 

E por último com Augusto na fileira dos frios sendo ele um dos filhos do meio também.

Fiquei esperando ele no início do corredor, mas cadê ele? Fiquei procurando e esticando meu pé para enxergar e procurar sobre os congeladores do mercado onde é que ele estava. Até que uma mão me cutucou e me deu um sustinho.

- Ah Oi! Eu dizia depois do susto.

- Eu já estava vindo, estava acabando de falar umas coisas com a minha mãe. Vamos lá?

- Eu não sei o que escolher muito aqui nesse mercado. Tem tantas cornes aqui, talvez um nuggets!? Em fim.

Ele riu.

- Nuggets é bom! Depois quero que me conte como é morar no orfanato. Eu sempre quis saber. Deve ser legal!

- Ah claro eu posso tentar falar um pouco, só não é tão emocionante como nas novelas.

Meus avós não eram mais vivos e meus parentes não moravam próximos de mim. O único que fui procurar eram primos da minha mãe, mas os parentes do meu pai acho que nem sabiam que ele tinha tido uma filha. Apesar de ser maior de idade eu não tinha emprego e nem pra onde ir. A ideia seria trabalhar pra essa família, mas na verdade pareceu uma adoção.

            Ás 22:00 voltamos pra casa. A senhora Helena me levou até meu quarto e me prometeu que no dia seguinte iria me mostrar todo o restante da casa. A princípio ela me mostrou onde era a cozinha em que a minha tia trabalhava e a dispensa onde colocamos as compras do dia. No meu quarto ela mostrou meu closet enorme que mal eu tinha roupas para preencher. Ela me mostrou a suite e a janela enorme. Em cima da minha cama tinha roupão de banho. Ela me deu um abraço e me desejou boas-vindas mais uma vez.
            Na primeira noite achei ter visto um fantasma porque aquele quarto parecia muito grande pra mim. Eu tava com medo, mas não tinha intimidade com nenhum do meninos para pedir ajuda. Até que a porta bate, eu abro e era Pedro.

- Já vai dormir?

- Pois é eu estou um pouco cansada.

- Ah! Essa sacola minha mãe pediu pra te entregar. Você esqueceu, são os seus produtos de limpeza.

- É porque aqui no banheiro já tinha tantos.

- Toma!

- Pra falar a verdade eu não tava conseguindo dormir. Aqui ficou muito escuro e é enorme.

Ele liga a lâmpada.

- Dorme de luz acesa.

- Obrigada, Pedro.

Ele se vira e vai embora com aquela com aquela blusa laranja gasta e parece surrada que ele tava o dia todo e entra para um dos quartos que ficava no meio desse corredor com os demais quartos, como se fosse um hotel

Um detalhe que descobri foi que alguns foram adotados quando criança e cresceram como irmãos. O Hadeyn, o Pedro e o Cakto, ou seja, o filho mais velho, do meio e o mais novo eram filhos legítimos. Me pergunto se eles queriam ter uma menina porque não adotaram uma antes.

            Na manhã seguinte fui pega tomando café da manhã com o cereal que comprei no dia anterior, mas o que eu não sabia era que teria uma mesa de café da manhã esperando por mim até a minha tia me avisar. Não queria fazer desfeita, mas eu já tinha tomado um copão de vitamina de banana. Fui para a mesa e sentei ao lado de Hadeyn que era muito gentil e me deu um guardanapo da qual segurei e agradeci. Começamos a comer e vi o meu reflexo em um alumínio na mesa, minha boca estava com espuma de bigode de banana. Passei o guardanapo imediatamente e entendi o porquê ele tinha me dado um guardanapo.

- Onde você estava, querida? Perguntou Ernesto o pai.

- Ah é que eu acabei tomando café da manhã mais cedo. Não sabia que teria outro. Eu sorri sem jeito.

Todos ficaram em silêncio.

- Ah ela não sabia. Dizia Helena a mãe.

- Com o tempo você vai se adaptando a rotina. Todos aos Domingos nos reunimos para comermos juntos de manhã é um costume da gente mesmo. Completou o Ernesto.

- Eles são ótimos, acho que sou eu que to me sentindo assim, sentindo pena de mim mesma, talvez eu não me encaixe. Desabafei com a minha tia horas depois do café da manhã.

- Você só ta insegura.

- Né?! Talvez sim. Eu tenho que achar um trabalho porque eles não vão me deixar trabalhar aqui na casa como você faz.
            Era final de tarde enquanto a senhora Helena estava na cozinha mostradno opções de novos cardápio para a janta. Cackto e Felipe estavam na escola, Hayden tinha ido trabalhar com seu pai na empresa de advocacia. Pedro na praia e Augusto em casa fazendo sei lá o que remotamente. Eu estava em frente ao notebook mandando currículos de trabalho. As inscrições pro vestibular já tinha passado, então vejo valores de universidades particulares e vejo na mesma página um anúncio de curso de fotografia da qual eu amava, mas não podia me dar a luxo. Dou uma pausa. Tem momentos que valem a pena reviver porque tem fins de tarde que são mais especiais. Termina em um tom alaranjado e damos boas-vindas ao anoitecer. Com a luz apagada do meu quarto, sinto na janela aquele vento gelado de outono e saltavam sobre meus olhos as cores daquele dia especial, mas não sabia exatamente o porque. Eu não sou muito de poesia, mas poetizei agora. Fecho a janela do quarto, pois começa a ventar muito forte naquele tarde e começou a chover de repente em seguida.
Faltou a luz em casa toda fica um completamente um breu. Eu não sabia que em casa de rico isso acontecia. Já estava de noite e tudo beirava a escuridão total. Eu não me sentia bem e não conseguia me mexer no escuro. Não ouvia a voz de ninguém do lado de fora da casa, nem dos dois cachorros enormes no jardim. Hoje fez muito calor durante o dia e agora estava sufocante.

Alguém subiu no meu quarto e pediu para eu descer, pois estava muito calor. Ele entrou e encostou no meu rosto e viu que eu estava suando.

- Vem vem logo sai daí e desce com a gente

- Eu não consigo.

- Deixa eu prender seu cabelo? E ai ta melhor

- Uhum

Balancei a cabeça e disse que sim. No meio na escuridão nos olhamos e consegui ver que era Pedro que estava falando comigo. Esses olhares não devem ter levado um segundo, mas pareceu congelar naquele momento. Ele se aproxima e nossos rosto e ficam muito próximos, mas ele pareceu não perceber. Ele assopra meu rosto, eu me afasto. Então faço o mesmo e guardei discretamente meu olhar do seu rosto.

- Não, eu não preciso descer eu to bem aqui.

Mas ele fez pouco caso do meu pedido e me levou escada abaixo

- Filho, leva ela ao médico.

- Eu cuidarei de tudo. Os médicos não tem tanto interesse como a gente.

Eu fui levada para a varanda onde tinha uma cadeira de balanço de madeira de frente para o jardim. Pedro pede para o pai ligar o farol do carro enquanto eu estava com as pernas bambas e ele me segurava enquanto eu estava deitada respirando o ar fresco de fora.

- Você é médico?

- Não. Eu sou enfermeiro, mas... espero nunca te ver lá. Dizia ele com a sua voz grave da qual ele parecia não ter noção que tinha.

- Eu to começando a me sentir melhor agora. Obrigada!

Todos em volta preocupados se acalmaram.

Pedro ficou ao lado de fora comigo enquanto a luz ainda não voltava.

- Sua mãe disse que ela não tinha te pedido que levasse a bolsa do mercado. Perguntei a Pedro.

- Que?

- Eu só queria te agradecer por ter me ajudado.

De longe ele não era um dos meninos que me deixavam sentir mais confortáveis, mas era o que me ajudava mais.

- Eu entendi. Exclamou Pedro.

- O que? 

- Saquei que você tem medo de escuro.

- Todos nós temos medos normal!

- Eu não sou psicólogo, mas me conte mais sobre seus pais.

Eu dou um riso torcido.

- Bom eu acho que não sei o que é ter e perder, eu só sei não ter. Sobre os meus pais, ficar menos triste não quer dizer que eu esqueci, mas sou profissional em sofrer. Quando lembro das Sextas-feiras, lembro da delícia de cada momento em cada conversa mesmo tendo 5 anos. Eu me sentia feliz comigo mesma.

Ele me escuta atentamente com a testa franzida e parece entender mesmo ele nunca ter passado por isso.

- No orfanato me chamavam de... retraída...sonsa, o que mais? ah bicho do mato, lezada, tapada... e me excluíam de tudo e depois inventavam uma fofoca de que eu tava faltando aos serviços de limpeza e as meninas nem me avisavam quais dias que elas iriam juntas. Na época eu nem falei que deveria ter uma ata pra assinar, mas a diretora ficou ao lado delas mesmo não dizendo com palavras. Era a minha palavra contra cinco delas. Botavam a culpa ainda em mim de que eu não tinha falado sobre o que meu incomodou e não comuniquei.

- É inveja. -Dizia ele depois de todo o desabafo e eu sorrir-  As vezes as pessoas tem dificuldades em acreditar que alguém podia ser bom pra eles, acham que você vivia de aparências e no mundo da lua. As vezes torcemos tanto para um momento ruim passar, mas viver é isso, é passar por momentos bom e ruins. Talvez mais ruins do que bons, mas quando olharmos pra trás vemos que conseguimos e continuamos e é realmente aproveitar o processo, é como uma festa de casamente, a festa passa rápido o melhor são os preparativos, sabe?

Eu fiquei um pouco chocada em ver Pedro falando tanto e se expressando, mas não posso confundir amizade com alguém que gosto de conversar só.

- Sabe o amor é muito mais imperfeito do que pensamos, do que a paixão, por isso é difícil amar. Meus pais tem uma história linda e sabe porque? O que faz ser linda? Foram as dificuldades que enfrentaram lado a lado. O fruto do amor deles que formou uma família e por mais que eles briguem eu comecei a enxergar assim. Tem amores que você ama alguém, não pra ficar junto, só por amar. Quando é unitaletal e você nem liga se não te escolher, aquele amor só vai existir independente. Existiu assim e era o meu avô, mas ai é outra história.

- Já eu quando não fui escolhida eu fui malcriada.

- Então acho que com os seus pais e a sua história é assim.

Naquele momento eu comecei tive um arrepio e admiração pela forma que ele pensava. Acho que esse foi o momento que eu me apaixonei. Eu já havia pensado nele, mas hoje olhei pra ele diferente demais, acho que comecei a conhecer ele de verdade.

- Eu aprendi agora que os dias caóticos são os mais bonitos, tem uma certa beleza depois que passa, principalmente se vividos ao lado de pessoas especiais. As vezes também realizamos sonhos em momentos caóticos ou aparecem pessoas em tempos assim.

Após eu ter dito isso eu rir pra ele e ele riu de volta. Ele riu comigo, ele riu de mim, ele riu dele, mas disfarçava querer rir mais, como se tivesse uma postura a se presar. Ele pigarreia com a garganta colocando o punho fechado na boca e virando pro lado na tentativa no que parece de disfarçar algo que eu tentava enxergar.

– Você é alguém cheio de vida apesar das dificuldades. Qual é o seu sonho? A luz de repente volta e todos comemoram. Nós entramos naquela noite e o medo todo do escuro passou já desde que conversava com Pedro.

            Na manhã seguinte eu fui ao quarto de Hayden perguntar que horas seria o café da manhã, mas acabei vendo Pedro no quarto dele de shorts e sem blusa dançando em frente ao espelho. Ele me vê e fica surpreso, mas... me puxa para a dançar no meu dia mais mau humorada com meu cabelo e pela vergonha do dia anterior.

Eu engasgada – Ah eu...pensei que o Hayden tava, aqui é o quarto dele?

Encostado na porta, sem desviar o olhar. – Pelo visto, alguém estava perdida pela casa.

Tentando me explicar – Eu não estava... quer dizer, eu estava, mas só me confundi.

– Você é hilária.

– Então se prepara que você vai rir sempre.

– Você vai sair?

– Vou, só estou com dúvida na roupa. Pedro me segue até o meu quarto.

– Essa ficaria perfeita em você

– Ah, não sei...tenho medo de ficar sensual demais.

Ele rindo – ah você ta falando sério? mas você não é sensual.

– É sério

– Prova pra eu ver vai.

Cruzando os braços – Tá vendo? Essa cara que eu não queria ver.

– Que cara?

– Essa cara de bobão.

Você acha que é só botar uma roupa assim e ai as pessoas vão se apaixonar por você, Emicca? Para de besteira.

            Nesse dia fui resolver algumas coisas e fui até o local do curso de fotografia para ter mais informações. Cheguei lavei o cabelo e desci para comer algo antes da janta encontro com Helena e ela me sugeriu que eu começasse a dar aulas particulares de reforço escolar para ao Davi e que ele estava com dificuldades em matemática.
– Queria que você aceitasse de coração.

– A senhora é muito gentil comigo.

– Foi o Pedro que deu essa ideia e eu achei maravilhoso.

– Sério?

  Ah ele sempre fala de você.

Ainda estática, quando me movi acabei deixando um vaso que parecia caro cair no chão e fez um barulhão. O marido dela aprece perguntando o que tinha acontecido? Que mancada depois de uma bondade dessa eu deixo cair algo da casa deles.

Davi desce as escadas correndo e pedem para ele não tocar, mas tarde demais ele acaba se cortando.

– Estão quebrando a casa? Pergunta, Augusto de cima da escada.

Cackto, nem desceu do quarto, deveria estar com fones de ouvidos e jogando no computador.

Hayden, chamou a minha Tia para ajudar a limpar e nesse momento ela olha pra mim sem entender o que tinha acontecido e não perguntou nada.

Quando tento ajudar na limpeza ouço uma voz ao fundo dizer algo abafado.

– Deixa ai, deixa ai, você vai se cortar, mas também vocês deixam tudo na ponta das mesas, assim não tem como não esbarrar. Dizia Pedro sem olhar nos meus olhos depois de chegar em casa um pouco nervoso.

Nesse momento eu não sabia o que fazer já que eu ao menos não poderia ajudar limpando.

– Me desculpa, eu posso tentar reembolsar de alguma forma.

Todos faziam silêncio e pareciam não me culpar, mas eu me sentia assim, então sai correndo chorando, sem deixar que vissem. Tem vezes que a gente chora por dentro, mas não escorre para fora. Hoje foi esse dia.

 

            Paralelepípedos, subindo escadas e descobrindo ruelas escondidas amava ter essa liberdade. A temperatura a das melhores, céu límpido e um cheiro suave de tempo bom, sabe? Daquelas que parecem marcar nossas vidas, nos envolvia na rua quando eu voltava para casa depois de mais um aula particular de matemática para outro criança. Quando cheguei em casa Pedro me olhava, mas eu fingia não notar.

 

– Não foi todo esse transtorno que você imaginou, normal. Deixa as coisas caírem porque você ficou assim me fala?


 Eu não sei.

– Mas eu percebi.

Sinto que com tinhamos formado essa íntima amizade especial. Eramos como uma família agora e ele conheceu uma parte da minha loucura que não era por ter conhecido, sobre meu medo de escuro e ficar triste por deixa as coias se quebrarem.

– Queria  te fazer uma pergunta se por acaso você não gostaria de sair um pouco? Pra você se animar.

– Tipo encontro?

– Já que você falou, é isso.

– Mas somos como família agora isso iria pegar bem?

– Então eu sugiro um encontro de mentirinha.

Eu tive que rir

Então essa tarde mesmo nós fomos pegar um cinema. Fizemos como se morássemos em casas diferentes e nos encontramos lá pra não estragar os elementos surpresa.

 Que foi?

– Só to fascinado. Seu cordão ou melhor colar, seu brilho labial, seu arco.

Olhei para frente e alguém vestia o mesmo conjunto que o meu e Pedro percebeu meu olhar.

 Não se preocupa em você fica melhor.

Eu tapava o rosto.

 Olha só eu e os outro caras, tudo de calça igual a minha. Não esquenta com isso.

Entramos no cinema e tava tudo bem até a mesma menina do conjunto igual ao meu sentar na poltrona ao lado, mas ignorei.

Enquanto víamos o filme que era para ser terror, acabou sendo engraçado, romântico, mas emotivo, pois era o último da franquia.

   E você o que você passou que foi triste? Eu perguntava curiosa por seu passado.

   Acho que eu nunca estive com quem realmente eu gostava ou admirava, ou queria estar ao lado. Eu tive tentativas e claro doeu, mas a pessoa que eu mais gostei não foi alguém que eu namorei. Então na vez que eu chorar, quando pensar que terei que dar adeus a alguém ai vou saber que realmente amei. Das outras vezes eu não conseguia chorar.

Eu conseguia enxergar por trás daquelas palavras quando ele dizia só coisas breves e o que ele disse agora. Era contagiante a sua personalidade, me pergunto quem não se apaixonaria por ele a começar a observar ele. Notei que meu coração já não andava igual do jeito de como cheguei na casa.

 No final do encontro fomos pra mesma casa, mas fingimos nos despedir.

   Obrigada por hoje, Pedro.

   Que tipo de homem eu seria se lhe desse menos que isso?

 Conheço e não... e conheço.

 Ou? Pergunta ele

– É brincadeira só conheço você.

Eu parecia toda desinteressada durante o encontro e sabia o que poderia estar no esperando nos próximos passos. Continuamos nos olhando e antes e esperar por um beijo, eu espero por um olhar apaixonado e consegui ver esse brilho.

Mas sugiro um beijo de mentirinha também. Então dou um beijo no rosto dele, mas como se fosse nos lábios por ter feito do seu rosto assim, e ele fechou os olhos sentido que aquilo não era um beijo no rosto qualquer.  Eu me afastei levemente. O que eu não esperava era que ele devolvesse o beijo na minha bochecha, da qual deixou até babado o meu rosto e ele se desculpa e nós rimos, mas os arrepios eram reais.

Nos subimos juntos e nos despedimos novamente no corredor de nossos quartos. Dessa vez senti o seu beijo no meu rosto a caminho da boca. Só que a senhora sua mãe/ minha madrinha aparece e ele me puxa para dentro do quarto.

 

 Não mereço um beijo? Pedro perguntava.

– Por ter me salvado?

– Uhum

 Um beijo com ternura?

– O que?

– Nada, eu viajei. Nós rimos com estranhamento que minha frase causou.

– É difícil arrancar risadas genuínas de mim, mas você consegue e eu me encantei por isso por isso.

– É que eu não consigo pensar muito perto de você. Boa noite!

– Boa noite, Mimica.

Eu volto a olhar pra ele.

– Seu novo apelido.

O melhor da vida geralmente acontece quando a gente menos espera, no meio da rotina, em um dia comum, foi assim que encontrei ele. Despercebida ele estava bem ali.

No dia seguinte.

– Eu estava pensando em você.

– Eu também pensei

– Eu senti sua falta... sabe eu tava querendo falar com você sobre a gente e ontem.

– Eu também senti sua falta.

 Porque você ta repetindo tudo que eu to falando?

Eu nunca tive uma melhor amiga, nem amigo e porque eu entendi o amor tantas vezes de outra forma que quando apareceu, eu não sei reconhecer.
            A minha nova família seguia feliz com a minha vinda a está casa, na presença de sua única filha menina. Minha tia não tinha acesso a informações sobre o paradeiro do meu pai. Na vida muitas vezes ficamos sem saber de tudo... Quem sabe algum dia saberei.

Depois do fim



Não sei se te imagino meu pra sempre. Bem que eu queria imaginar. Os dias tem sido pesados e você esteve sempre ao meu lado. Os sentimentos não se tornaram uma arvore frondosa. Não como naquele momento em que a alvorada quebra o crepúsculo da noite, e nós pegamos esse momento em que a luz erradia. Tem pessoas que parecem o começo da alvorada e que nos faz acreditar no amor e que são cantos de uma alvorada e de começos brilhantes com a luz do sol.

Tem algumas realidades que a gente nunca pensa que vai viver

Quando era jovem eu achava difícil as coisas acontecerem comigo ou com pessoas próximas de mim, mas com o tempo as coisas brutalmente aconteciam e agora sinto que tudo pode acontecer, só que as vezes não está acontecendo nada, mas o medo permanece.

Eu pensei que era uma pessoa boa até saber dele. Fui covarde.

O mais assustador que parece que nada ao redor pode confortar, o que consola é que sei que tudo passa.

Depois do fim:

Hoje ele é feliz. Não é tão simples dizer eu te amo e alguém  voltar a ficar comigo, como nos filmes quando escolhem ficar. Com lágrimas nos olhos digo a ele – desculpa – e ele sente que eu sempre serei uma parte boa da sua vida e agora outra pessoa era importante pra ele e só ela. Todos tem uma maneira de ser feliz ele achou a dele.

Ao meu príncipe desencantado



Não foi no elevador;
Não foi na fila do pão das 17h;
Não foi naquela loja de ótica fantasiado de homem morcego;
Não foi depois de segurar uma guarda-chuva pra mim;
Foi em uma estrada.

Quando eu me apaixonei por você foi uma história engraçada, não tinha intenção e nem nada. Não reconheci de primeira o nome daquela estrada e você estava lá, mas não foi uma viagem longa. Desci quando vi que existia algo, talvez no tom da sua voz que eu não reconheci não ser o ideal pra mim.

Só depois que desci que reconheci o que estava no meu coração, por trás da placa de aviso de parada. Era a parte boa de ter você na minha vida.

Você foi diferente e inconsequente, nem de longe se importava para os meus defeitos e fez eu sentir que nada em mim era errado. Achava legal ter alguém assim, mas inconsequente com o coração alheio também. Se você soube disfarçar o sono em uma aula, também soube disfarçar de mim a sua mentira.

A nossa história começou igual a um filme. Falas e roteiro da vida, pareciam estar com a gente e já com um final traçado. Como histórias de amor falidos que se repetem. Igual aquelas histórias que ouvimos nas músicas, em contextos diferentes, mas sempre o mesmo final. Você sabia o que eu merecia ouvir, mas sabia que também não vinham do coração.

Você era o meu contato de emergência. Ao menos o considerei.

Falar com você era tipo aquelas cosquinhas boas que dá vontade de rir e faz a barriga doer.

Eu queria dizer certas palavras, mas sempre acabo fazendo poesia. Eu não te odeio. Cansada apenas joguei as mesmas palavras repetidas em você.

Parece que se algo não é duradouro não é verdade e será que é? Alguns finais não lembramos, já outros nos despedimos. Tem os finais que trazem alegria e foi ai que eu percebi eu já escrevia sobre finais felizes, mas já outros finais nos trazem saudades e você é um desses. 

Confesso que ainda penso em você, mas a nossa história é só um risco, sem verso que mereça ser lido.

Ainda existe ecos de você em mim, como vestígios. Ainda ressoa em mim, ainda ficava afim de você as vezes, mesmo depois do fim, mas logo comigo você quis levantar muralhas. Um sentimentos bonito vira silêncio. Injusto não poder dizer o que sente e eu disse, mas parece que eu ainda tinha algo a dizer, sobre como eu me sentia porque eu te amava mais do que ontem, todo dia um pouco mais.

Te amei porque você me deu uma coisa, os melhores sorrisos, pois meu melhor sorriso era com você. Não era um pertencer declarado. Às vezes, é que quando uma parte da gente constrói casa no outro, silenciosamente é como se essa pessoa fosse o nosso lar fora de casa. Eu me sentia assim com você. Quando essa casa desabou sobre a minha cabeça aprendi que quero aprender o que é o amor, mas só me ensinaram o que é dor.

A todos aos meus príncipes desencantados te dedico que eu não vejo mais em você o homem pelo qual eu me apaixonei.

O óculos, o vinil e o passeio.



Eu acho que eu entendo mais de dor do que alegria porque na vida a gente precisa passar por ela mais vezes pra saber lidar melhor, pra ser melhor de lidar e a alegria ah ela é mais fácil de sentir, não precisamos treinar pra isso.

 

As coisas tem andando sem sal e já faz um tempo. Não aconteceu mais nada inesperado, de bom. Às vezes eu fico pensando o que aconteceu? E o sentido de antes.

Sinto falta do inesperado bom. Do que vira história pra contar depois. Como daquela vez que quando fui em um evento tipo uma bienal, mas eram exposições de marcas e apresentações e tinha uns influenciadores digital que estava lá e naquele dia eu fui só de bobeira e nem sabia que ele estaria. Então do nada eu vi um deles que em que eu era fã e consegui tirar uma foto com ele. Depois eu vi ele no final também e ai eu falei assim  nossa acho que ele tá indo para tal lugar depois daqui e ai me chamaram para o mesmo tal lugar e acabou que nós fazemos amizade assim. Essas coisas inesperadas nunca mais aconteceram. Ele era de São Paulo e eu daqui do Rio.

Até mesmo o filme que eu assistia quando criança, eu entrava dentro do filme eu o vivia, mas hoje não sei se são as produções, não sei se o ambiente ou se sou eu, mas eu só vejo e eles passam.

Eu romantizo tudo e penso, tá, mas eu vou nessa loja de vinil, comprar o óculos que quero e quando eu for usar e depois? E ai nesse dia eu queria encontrar alguém especial também e tudo gira em torno do encontro bonito. No final das contas só queria uma história de amor verdadeira. Com aqueles inicios de histórias lindas.

As coisas não estão mais como antes, acontecia muitas histórias e amor e encontros inesperados. Eu sinto esperança e cansaço. Um coração que ainda quer magia num mundo que anda cada vez mais sem encanto.

Eu sou do tipo que vê um filme com  o coração e queria que a vida tivesse aquela trilha sonora que toca bem na hora que algo começa. Eu espero que o acaso ainda traga um encontro bonito, que a bienal da minha vida real volte abrir as portas, que uma coincidência boa vire começo de algo.

Mas às vezes a vida entra no modo meio “sem sal”, é como se tudo fosse um entre-tempo eterno: nem tá ruim, mas também não acontece nada marcante e parece que as melhoras coisas já passaram. Esfria um pouco aqui dentro, fica em tempos de dias nublados cedento por uma novidade e sinto saudade daquela época em que tudo parecia especial.

Mas lembro que eu ainda crio mundo com palavras eu criei um encontro fictício com base num sentimento real. E isso é mágico e sabe porque? Por que quem ainda consegue imaginar histórias é porque ainda acredita que algo bonito pode acontecer.

Talvez a fase da minha vida esteja pedindo mais pausas do que surpresas. Talvez a vida esteja me poupando de algumas dores e só queira passeios, usar óculos estilosos e ir na loja de vinil tirar fotos. Continuo romantizando, esperando o inesperado, não posso esperar um filme eu preciso escrever as cenas que faltam nem que seja só por mim. Quando menos esperamos algo está se passando e vira lembrança bonita, nostálgica e só depois a gente vê como foi especial, talvez agora eu sinta isso, mas ainda sim eu só não esteja percebendo que também é especial.